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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Rascunho - 03










Depois que aquela cabana passou a ser habitada, tudo por ali ficou mais alegre e  vistoso.
O senhor Kensuke e a senhora Yumi viviam felizes tirando da terra o que a terra lhes devolvia graças ao trabalho árduo e dedicado.
Além das hortaliças a senhora mantinha também um lindo jardim que ficava em frente à cabana.
Todos que por ali passavam ficavam maravilhados, não somente com  o colorido das flores, como também pelo capricho com que ela se dedicava aos bonsais e também aos arranjos de flores.
Uma cerca baixa feita de bambu onde se agarravam democraticamente um pé de bucha; uma aboboreira e flores de ipomeia, circundava a gleba onde moravam.
Um vento fraco parecia anunciar mudanças  no tempo. Chegara noite e na aldeia tudo era silêncio, exceto pelos coaxares que vinham próximo de uma pequena plantação de arroz logo abaixo.
O casal já se preparava para se recolher quando uma voz rouca chamou:
- Olá de casa! olá! Podem me ajudar?
- Quem é a essa hora? Perguntou o senhor Kensuke meio retraído e abaixando a luz do lampião.
- Um peregrino procurando um canto para passar esta noite!
Com determinado cuidado abriu a porta, levantou o lampião conferindo o estranho e depois convidou-o a entrar. O vento agora soprava mais forte.
Era um homem de meia idade e com roupas bem simples carregando um alforje surrado feito de pano grosso. Tirou o chapéu curto e ainda se apoiando num bastão de bambu agradeceu a acolhida. Na cozinha avivaram o fogo quase borralho e serviram-no uma sopa quente e um chá de algumas folhas.
 Num cubículo contíguo onde costumavam guardar sementes e algumas ferramentas, um tatame estendido sobre palhas secas e um velho cobertor deram ao peregrino uma noite reparadora após um dia inteiro de caminhada!
Porém, o velho demorou a dormir. Já era hábito seu deitar-se e ficar um bom tempo recordando tudo o que acontecera durante o dia de caminhada. Os lugares; as pessoas; as paisagens, e tudo ele anotava, pois esses eram como argumentos que lhe inspiravam a escrever. Então ficava ruminando aquilo até que finalmente o sono lhe arrebatasse.
Amanheceu e o vento havia parado, porém, trouxe uma chuva muito forte. Uma chaleira fumegava sobre a chapa. Fazia frio lá fora e a cozinha era agora o lugar mais confortável da cabana. Mas, o peregrino estava mesmo muito preocupado com o fato de a chuva não parar porque isso retardaria a sua chegada ao destino.
Não demorou e a senhora Yumi trouxe uma bacia com água morna e duas toalhas. Enquanto enxugavam os rostos, conversavam:
- O senhor vai para onde? Perguntou o dono da casa.
- Para o templo da montanha visitar um grande amigo de infância. Mas acho que me perdi no caminho, por isso não consegui chegar ao albergue que fica no sopé dessa montanha. Respondeu ele olhando a chuva pela pequena janela entreaberta. E continuou: - Já há muitos anos renunciei à vida urbana. Prefiro andar pela vida junto à natureza buscando conhecimento e inspiração para escrever. Sem apegos sinto-me mais feliz.. Cansar destas viagens é bem melhor do  que se cansar da cidade.

Diante dos olhares do casal, um misto de espanto e curiosidade, o velho abriu seu alforje e de lá retirou uns papéis pardos e tinta além de uma pena e começou a rabiscar. E foi com apurada concentração que passou a escrever sem parar, como aquela chuva que caia, e isso aguçou ainda mais a curiosidade dos dois. “O que escrevia aquele homem com tanta dedicação?”
 - Deve ser alguém com muito conhecimento, viu como fala e como escreve? Sussurrou  a senhora. O marido apenas franziu a testa concordando.
A chuva deu uma amainada e dentro da cabana o que mais dava para ouvir além do crepitar da lenha, era o rangido da pena sobre o papel. O fogão já cozinhava o almoço mas o chá, esse  era imprescindível.:
- Senhor! O chá.
- Ah! sim. Obrigado. Disse ele à senhora agradecendo de forma respeitosa como sempre fazia.
A senhora Yumi então aproveitou esse momento para matar a sua curiosidade. Foi com muita discrição que  passou os olhos de relance sobre a mesinha e perguntou:
- Me desculpe senhor, são poemas?
- Sim, haicai, uma forma de poema. Conhece?... gosta de escrever também?
- Sim, gosto.
- Quer tentar o haicai?
- sim!
- Então observe, pois ele pode estar na janela, na chuva, aquecendo-se perto do fogão, na palha, na floresta..... é só abrir a sua alma. Explicou ele pausadamente com a paciência que lhe era peculiar.
Quando a chuva parou de vez, já era madrugada do outro dia. O céu amanhecera coalhado de estrelas. Nem parecia  que todo aquele aguaceiro havia caído.  Aromas agradáveis das folhagens e flores noturnas ainda vagavam pelo ar. Assim como de noite um pouco da luz do lampião  fugia por algumas frestas da cabana, de dia, logo de manhã parecia que  o sol  trazia tudo de volta e passando  pelas frestas se projetavam na tosca parede com imagens fantásticas, surreais. Ao mesmo tempo que  observava  essas  imagens o velho peregrino  também se preparava para partir. Em seu alforje, além dos papéis e tinta, iam também algumas   tangerinas e caquis para a viagem.
 Mas, foi o chá mais uma vez quem deu as honras. Servindo-lhe o chá da manhã e desta vez um pouco tímida, a senhora Yumi mostrou-lhe uns haicais que havia escrito a noite passada. O velho os examinou demoradamente. Depois, movendo as grossas sobrancelhas brancas, disse:
- A senhora, excelente Haijin!
A senhora Yumi não cabia de contentamento e orgulho. O senhor kensuke apenas a olhou por cima dos pequenos óculos e sugeriu para que o  peregrino ficasse mais um dia até que os caminhos estivessem secos. O velho agradeceu mais uma vez pela hospitalidade recebida, mas estava determinado e continuou:
- Bem! Agora tenho que ir, o sol logo  arde e a estrada deve estar morrendo de saudades deste velho andarilho.  Adeus minha gente, adeus.
E numa despedida mais de olhares e acenos, o peregrino fincou pé no caminho, agora com mais vigor.
Quando virou-se para olhar mais uma vez, a cabana já se perdera entre umas ramagens. Mesmo assim acenou levantando o seu bastão. No mais, somente o som da mata.
Depois da chuva a rotina voltara ao lugar, agora, acompanhada de um vazio. Porque aquele homem sábio na palavras ocupou  não somente o espaço da casa, mas, principalmente e para sempre, o coração da senhora Yumi e do senhor Kensuke.
Todavia mesmo em meio a esse sentimento a senhora Yumi teve uma ideia bem original. Em pequenas tabuletas feita de madeira ela passou a escrever seus haicais e os fincava junto às flores.
Os moradores que ali passavam, se já se maravilhavam com aquele jardim, agora tinham mais um motivo.
Conta-se caro leitor, que com o passar dos anos vários aldeões da redondeza aprenderam também a escrever haicais, graças  a um sábio poeta que por ali pernoitou e que nunca mais fora visto, e principalmente por causa do jardim da senhora Yumi.








quinta-feira, 31 de maio de 2018

Arrebanho de novos poemas.. - 2018/Maio.


Vermes
Mesmo nos jazigos mais ricos
Não te livrarás dos vermes
Pois eles já estão em nós
Desde que nascemos!
  
<>/<>/<>/<>/

Dizem...dizem.
Dizem que no topo de uma montanha,
Geograficamente estamos mais perto de Deus!
Todavia eu, nem sou alpinista,
E ainda tenho medo de altura!

Dizem que naquele suntuoso Templo...
Eu posso ficar, cara a cara com Deus!
Hum.. todavia lá, terei que pagar ingresso!
Ora! Ora! Não me sobra dinheiro
E minhas roupas estão rotas...

<>/<>/<>/<>/ 

 Ser ou não ser!
Os picos  mais altos
São majestosos por excelência.
Porém, são mais susceptíveis
À neve e neblina.

<>/<>/<>/<>/

Alegria x tristeza
A alegria bate à porta.
Você, claro a recebe
Com carinho!
Mas, a tristeza
Possui chaves falsas.
“Por isso entra sem bater”
Espante a tristeza
Antes do seu pensamento
E não precisarás
Ficar a trocar
Suas fechaduras!


terça-feira, 15 de maio de 2018

Novos poemas novos


Estrela cadente.
A vida
De repente......!


Estrela cadente.
O orgasmo
Da gente.!


Mosteiro em ruínas.
Um  chorão entre escombros, canta
Um triste mantra!


A tarde desmoronando
E a noite erguendo
Castelos de medos!


A terra ressequida,
O gado e o verde, morrendo!
Pelos caminhos, os retirantes
E no topo da serra,
Nuvens carregadas
Também retirantes!


LOA E VEN
Levanta a tua fronte
Oh! Flor que se diz, triste!
Abra as tuas pétalas em sorriso
E deixa fluir teu perfume.
Veja! Sempre há um novo sol
E a rosa que também carrega seus espinhos
Nunca deixou de ser a Rosa!


O modernismo veio pra quebrar paradigmas.


A glória das letras só a tem, quem a elas se dá inteiramente.
( Lima Barreto )


Nunca vira o mar
Mas, ganhando uma concha
Pensa ouvi-lo todos os dias!





segunda-feira, 16 de abril de 2018

O Apagão






Nem bem se acomodaram em suas camas e faltou a luz. A mãe correu a acender uma velinha de azeite que costumava ficar numa prateleira de canto ali mesmo no quarto. A luzinha amarelada parecia travar uma luta ferrenha contra aquela escuridão. Mesmo trêmula, persistia.
_ Justo na hora da novela. Reclamou Katherine a filha mais velha, no que concordou Emily sua irmã.
_ Que horas são? Perguntou a mãe.
_ Que diferença faz se está tudo escuro! Exclamou Katherine.
_ Acho que está na hora do meu remédio. Retrucou a mãe.

E apanhando a velinha de azeite deslizou com seu par de pantufas com cara de coelho, pelo corredor rumo à cozinha, perseguida por sombras disformes e deixando para atrás um profundo breu.
Um burburinho vinha lá de fora. Emily abriu a veneziana com muito cuidado e pode ver que pessoas conversavam nos portões, enquanto algumas crianças ensaiavam alguma brincadeira.
_ Nossa! A noite está linda! Venha ver só que lua cheia no céu, parece dia! Exclamou a menina com a cabeça do lado de fora da janela.

De fato a noite estava tão clara que as camélias do jardim pareciam prata brilhando e era possível também identificar algumas constelações como: Escorpião, o Cruzeiro do Sul e Três Marias, entre outras. A serra mostrava seu contorno cor de petróleo e as luzinhas que desciam pela escarpa. A noite exalava  uma mistura de aromas primaveris e a temperatura era muito agradável.
Quando a mãe retornou as duas meninas estavam na janela e a réstia  do luar que entrava, deixava uma poça prateada no chão escuro do quarto. Um vagalume afoito entrou num voo suave e empolgou as meninas, com o piscar intermitente de uma luz quase esmeraldina.
_ Ah! que luar lindo, fazia tempo que a gente  não via um assim! Exclamou dona Amélia. E continuou. _ A lua me lembra das histórias que eu ouvia quando menina, e na maioria das vezes eram histórias de assombração ou coisa parecida!
_ Então conta uma pra gente?

_ Lembrei-me de uma, mas essa é engraçada! _ Era já no lusco-fusco e havia uma lua cheia saindo de trás do cume de uma igreja que ficava perto de casa. Eu estava no quarto dobrando algumas roupas, quando vi da minha janela uma cena bem curiosa. Parei e fiquei a observar. Havia ali bem na beira da rua um monte de areia para construção. Um homem que usava tamancos, e naquela época era normal usar tamancos, acho que para desviar de uma poça d´água que havia ali caminhou pela areia e acabou perdendo um dos pés de tamanco. O engraçado da cena, é que ele ficou tão apavorado procurando o tal pé de tamanco, que de cócoras, mais parecia um cachorro preparando uma cova para fazer cocô! Concluiu dona Amélia sob risos incontroláveis das meninas....
Terminada a sessão de risos, Katherine veio com suas lembranças.

_ Vocês lembram quando o pai chegava do trabalho e depois da janta, descia aquele velho rádio que ficava  longe  do nosso alcance e colocava sobre a mesa da sala para ouvir  músicas e principalmente aquelas emissoras em ondas curtas? Pois é, enquanto isso, o que mais me chamava a atenção era a traseira do rádio. Eu ficava maravilhada olhando aquelas válvulas acesas e imaginando que lá é que ficavam os cantores e locutores com seus vozeirões...Nossa! quanto tempo e que saudades do pai. Ele era muito engraçado e as histórias que contava, acho que inventava ali mesmo na hora. Concluiu ela com os olhos marejados.

Então foi a vez de Emily: _ Mãe, conta aquela do homem bêbado que entrou em nossa casa por engano? Dona Amélia deu uma pausa e começou:
_ Foi quando faleceu um vizinho que morava na rua debaixo. Os amigos, os parentes vinham para dar um último adeus. Já era quase hora do almoço, quando pela porta da cozinha entrou um homem que mal ficava em pé. Parou  bem em frente à minha máquina de costura que eu sempre cobria com um lençol  branco. Tirou o chapéu de feltro e começou a reverenciar aquilo que ele achava ser, balbuciando umas palavras que mal se entendia. Quando eu percebi a cena fui logo dizendo: “O senhor bebeu e entrou no lugar errado. O morto mora na casa debaixo” O homem saiu balançando e resmungando, e nem sei se achou a casa certa depois.
Foi mais uma sessão de risos, enquanto lá fora ainda se ouvia pessoas conversando e crianças brincando. Um grilo no jardim, resolveu fazer sua serenata e era também possível ouvir: _ elb, elb, elb ....elb, elb, elb... Um canto dissonante das rãs que viviam num pequeno brejo logo abaixo da rua.

_ E a história do homem da lamparina, mamãe? Cutucou Katherine.
_ Sim, essa era seu pai que contava.......
_ Eba! Chegou a luz! Gritaram as meninas com os olhos arregalados de alegria.

Lá fora também se ouviu  aplausos e gritos comemorando o retorno da  energia!
Imediatamente fecharam a janela, apagaram a velinha e ligaram a televisão. Nem rãs, nem grilos, constelações, o cheiro de murta..... E tudo voltou ao que era antes. No quarto nenhum pio, só o monólogo da TV. A rua ficou com a solidão da lua e na rua também tudo voltara ao silêncio total, com exceção dos apitos do guarda noturno que passava em sua bicicleta!




Conto de JAL - 15/04/2018

sexta-feira, 2 de março de 2018

OS TRÊS...








CAPITULO-I




Era uma casa  simples fincada num quintal enorme cujo fundo terminava onde lentamente passava  um riachinho sempre crivado de guarus. Num dos lados  da  casa   via-se  uma  chaminé de tijolinhos onde  uma  gaze de  fumaça meneava seu corpo frágil  ao  sabor  do  vento. Na varanda, samambaias de metro  desciam a tocar o chão enquanto um pé de madressilva florescia já  a  alcançar  o madeirame do teto. Era caiada e possuía portas e janelas grandes pintadas de azul.
O quintal varrido por improvisadas vassouras feitas de guanxumas ficava liso de tal forma que as gudes rolavam tranquilas. As folhas das bananeiras pareciam grandes orelhas a ouvirem o que os meninos combinavam  para o dia. As touceiras de cana riscada, mel da terra, estercadas por patos e galinhas que solenemente, depois de ciscarem, descansavam em suas sombras. O limoeiro carregado de mexericas, era assim que  os vizinhos chamavam até saberem tratar-se de limão-rosa. Ali morava o menino Frederico. Há algumas casas abaixo, moravam seus fiéis amigos, Samuel e Natalino.
Cada um com suas habilidades: Natalino conhecia a arte da pesca com linhada ou vara, além das arapucas. Conhecia também  as frutas  do mato, o que era bom e o que não era bom para se comer. Frederico era mais ligado  em inventar ou criar coisas, brinquedos  além da astronomia. Samuel adorava literatura e já rabiscava alguma coisa, mas, parecia que além disso tinha jeito para cuidar de  pequenas feridas  em animais ou gente. Certa tarde, Natalino chegou para jogar bola como haviam combinado. Porém  o seu pé estava inchado, aliás, já fazia algum tempo que sofria com isso. Era só dar uns chutes e o peito do pé direito arruinava muito. Naquele dia, Samuel estava presente e notou o enorme inchaço. Natalino estava sentado à beira do campo e Samuel lhe pediu para expor o pé vurmoso, ele queria dar uma olhada. Tocou levemente e sentiu  que havia algum corpo estranho ali. A pele parecia uma seda de tão fina.
__ Olha! Vou puxar viu?
__ Caracas, dói!
__ Vai deixar ou não?

E perguntando agarrou a ponta e puxou. Puxou de uma vez. Era uma farpa de madeira de uns  quatro centímetros. Primeiro, o grito, o sangue e o pus. Depois , o alívio, o sorriso. Dali para  a frente Natalino pode até usar sapatos.


Numa manhã de domingo após o café seu pai, o senhor Bernardo apressou-se a  apanhar o jornal costumeiro. Logo na primeira página em letras grandes um título chamava a atenção.:
__ Frederico, venha ver isso aqui! Alarmou o pai.

Era abril de 1961, quando o cosmonauta Soviético Yúri Gagarin a bordo da Vostok-1, transformara-se no primeiro homem a orbitar o planeta terra numa altitude assombrosa. Concluiu a façanha em 108 minutos. Maravilhado ele exclamou: "A terra é azul".
Porém, por causa desse histórico acontecimento alguma coisa não ficou bem. Isso tornou-se a centelha que deu início a uma corrida espacial sem precedentes entre EUA e URSS, exacerbando ainda mais a chamada guerra fria entre  as duas potências que  já se arrastava desde o final da segunda grande guerra.

"Isso tudo não passa de lorota, propaganda pra vender mais jornais e revistas. Efetivamente não acreditavam que um ser humano colocado dentro de uma  rústica bola de aço pudesse voar tão alto, cair no deserto e ainda sobreviver!"
Este era o pensamento da maioria das pessoas que viram a notícia. Gente refratária à coisas  da ciência espacial. A incredulidade era muito forte e tinha lá suas razões, exceto para Frederico, aquele menino sempre  adorou tudo relativo à  ciência espacial e essa não foi diferente.
De imediato o menino se apoderou daquela página de jornal e leu e releu até perder a conta e o sono....
No dia seguinte durante o recreio da escola chamou seus dois amigos mais próximos, Samuel e Natalino e a eles mostrou com júbilo o pedaço de jornal. Logo estavam rodeados de curiosos que palpitavam a respeito.
_ Que tal a gente construir uma coisa assim parecida e brincarmos de viagem espacial? Perguntou Frederico com os olhos brilhantes.
_ E como a gente constrói essa jabiraca? Gritou Natalino.
_ Vamos pensar! Pensaram?
Uma idéia veio assim como um raio e foi de Samuel.
_ Um tambor!
_ Batata! Gritou Frederico. Vamos colocar isso no papel. Concluiu.
E assim fizeram naquele mesmo dia.

Os três meninos andavam sempre juntos, e assim ganharam o apelido de "os três da vila” sempre acompanhado pelo cão de Frederico que se chamava Turuna.
A vida caminhava tranquila para os meninos. Escola e brincadeiras. Também regulavam na idade, onze para doze anos.

Sara  irmã mais velha de Samuel, já  há algum tempo, demonstrava uma forte queda por Frederico. Quando o via, seu coração acelerava, porém a reciprocidade não era verdadeira e isso deixava a menina quase sempre emburrada. Os estudos, as invenções e criações das traquitanas era o que realmente interessava e ocupava a mente de Frederico.
Depois da aula dirigiram-se os três até o Ferro-Velho do senhor Maneco na esperança de encontrar o que desejavam para a construção de mais uma daquelas engenhocas..
Na entrada mal cuidada, havia um frondoso pé de urucum que além de uma sombra acolhedora forrava o chão com seus ouriços maduros e fendidos pelo calor. Pisando com cuidado entraram  e já começaram a escarafunchar com os olhos, algo que lhes interessasse.
         __ Caramba carambolas! Olha lá no meio daquela bagunça toda, gritou Natalino despertando  o velho que tirava um cochilo:
_ O que querem aqui seus moleques? Esbravejou ele com seu sotaque lusitano.
_ É aquele tambor velho ali, o senhor daria ele para nós? Antecipou Frederico.
_ Se me pagam!
_ Mas é velho e não serve pra nada seu Maneco!
_ Ora! Se não serve pra nada por que querem?
_ Caramba carambolas! Não falei que isso não daria certo? Irritou-se Natalino.
         __ Espera! Gritou Samuel Quanto custa?
         __ Três mangos, preço de balas, sem pechincha!
         Os meninos se reuniram numa conferência.
         __ O senhor compra garrafas? Perguntou Frederico.
         __ Se for de cerveja pago cinquenta  centavos, pois.
         __Tudo bem seu Maneco a gente volta!

Saíram os três a passos cuidadosos e com olhar de pura traquinagem.  Bastou o velho Maneco dar as costas para se embrenharem em meio àqueles escombros de ferros  garrafas e madeiras e coisas  indefinidas..
__ Mas, pegar assim as coisas dos outros, não é o mesmo que roubar? Perguntou aflito o menino Samuel.
__ Não! Se agente pagar depois. Disse Frederico aprumando o peito.
__Ah é?? Sei não.  Isso ainda vai dar encrenca. Respondeu Natalino.
__ E então? Perguntou Frederico!

A trapaça se consumara embora não com unanimidade.
Por fim saíram  daquele monte de  coisas e insetos além do calor insuportável e  cada um com duas garrafas,  fingindo entrar novamente se dirigiram até o velho Maneco e trocaram as garrafas por um velho tambor que uns ramos de ipomeia já tomavam conta!
Rolaram o tambor pelo mato até chegaram à casa de Frederico e lá o esconderam sob umas ramagens. Aquilo afinal era segredo de Estado!!
Sujo da cabeça aos pés, Frederico chegou de mansinho evitando se encontrar com sua mãe. Tentou a janela do quarto, porém , sua mãe entre as roupas coloridas no varal o flagrou:
__ Pela janela? Onde você  se meteu menino? Olha só para isso, parece que saiu de uma chaminé! Já para o banho!

No meio da conversa apareceu Aninha sua irmã e disse:
__ No mínimo estava com Samuel. Vivem, grudados como chiclets. Mãe! ele não deixa o menino em paz.
__ O quê? Ciúmes   agora? Esbravejou o irmão.

Emburrada, Aninha correu para seu quarto e lá se fechou.
Depois do banho e roupas trocadas, saiu o menino Frederico ainda mastigando um pão com manteiga, rumo à  casa de Samuel.
Lá chegando encontrou Sara aos prantos sentada num dos degraus da escada que dava para a cozinha. Os intermináveis soluços  da menina tornavam quase incompreensíveis suas palavras. Num gesto de cavalheiro abraçou-a dizendo:
__ Calma! Calma! O que aconteceu a final?
__ Veja lá dentro! Está morto, viu? Ontem à noite estava bem.

 Frederico ficou trêmulo, angustiado, mesmo assim perguntou:
__ Quem morreu?
__ O meu   ramster  está morto!

Aliviado e disfarçando os tremores nas pernas, consolou-a por um bom tempo tendo-a em seus braços.
O momento era de tristeza, mas a menina se sentia amparada e privilegiada por  estar  junto de quem alimentava  uma paixão. Logo a cor saudável voltara  ao rosto de Sara e um tímido sorriso se fez.
Lá no fundo do quintal, numa cova de um palmo sepultaram o querido bichinho de estimação.  Duas pedrinhas e uma cruz de graveto marcavam o lugar.

A semana foi intensa para os meninos Tudo era um segredo só. Rabiscaram várias vezes num pedaço de papel o que seria  na realidade a tal espaçonave. O tambor caíra como uma luva. Apoiado sobre quatro tijolos, tinha como ogiva, um velho guarda-chuva que ficava meio aberto, escotilha e um fumacê que vinha da queima  de estopas molhado de querosene. Finalmente chegara o sábado, o dia tão esperado do voo inaugural.
Os amigos e convidados foram chegando. Logo, o quintal da casa de Frederico parecia um parque de diversões.
O interessante era que cada viajante teria que dizer uma frase, assim como fizera Yúri Gagarin.
Entre uma viagem e outra, apareceu para surpresa de todos, Dona Amélia, mãe de Frederico, acompanhada do senhor Bernardo, trazendo  um bolo de fubá, um bule com chá mate e  uma jarra com refresco feito de limão rosa. E até um redator do jornal do Bairro.
__“Ah!  daqui de cima a terra parece uma bolinha de sabão solta no espaço. Que linda!”  Disse um.
__ Que bom seria se todos pudessem ver a terra aqui de cima, somos frágeis como uma bolinha de sabão. Disse outro

E assim, os voos foram se sucedendo assim como as frases também até o ultimo viajante.
E foi a tempo pois uma névoa úmida  já tomava conta de tudo, fazendo desaparecer a grande muralha azul e pintando a paisagem de uma cor única, antecipando o lusco-fusco!






CAPITULO-II




A rua onde moravam era simples, descalça batida com cascalho de rio. Do lado de fora da casa de Frederico, junto a cerca viva, havia um banco feito de um velho dormente de estrada de ferro, onde os guris e adultos sentavam e contavam histórias. Também era comum sentar-se nesse banco, simples transeuntes, bêbados e até gente gira da cabeça. Um banco bem democrático!
Era comum acender uma fogueirinha quase todas as noites, mesmo não sendo época delas. Ali em volta do fogo os meninos contavam e ouviam histórias que iam se sucedendo, desde as engraçadas até as mais cabulosas. Esse momento só era quebrado com o apito do guarda noturno, avisando que  já era hora de entrar para casa.
Mas as fogueiras pra valer eram aquelas do mês de junho. E o caminhar do calendário trazia a todos mais uma vez,  a véspera de São João. Pela redondeza haviam alguns arraiais, como o Arraiá da curva reta; o Arraiá do Chicão; e o do João Tibúrcio, esse um dos mais concorridos.
O terreiro do seu Tibúrcio, batido e varrido ficava  um encanto enfeitado com bambus verdes entrelaçados e alguns  vasos  de guembés estrategicamente colocados. Varais com bandeirinhas coloridas se agitavam dando um toque especial à festa. Um enorme portal enfeitado com barba-de-velho convidava a todos.
A grande fogueira alimentada por grossas toras era capaz de arder por uns três dias após a festança. No auge da comemoração as  rezadeiras  vinham em ladainhas de dentro da casa até o lugar onde seria erguido a bandeira ao santo homenageado. Então depois de longa espera o mastro era fincado, acompanhado por um ensurdecedor espocar de fogos e por fim lá em cima  balançava mais uma vez, a bandeira pra São João Batista, início então dos comes e bebes que fartavam sobre compridas mesas, dentro e fora da casa.
Mas, Frederico e sua turminha não estavam ali somente por causa dos quitutes e doces que a festa oferecia. As varetas dos rojões que acabavam de ir ao céu, eram disputadas pau a pau pela gurizada como se valessem uma  medalha de ouro. E caiam em lugares dos mais difíceis como num mato fechado ou num charco que  havia.
Por lei os balões chamados caseiros, balões grandes, eram proibidos por causa, principalmente, da implantação de um complexo industrial químico nos arrabaldes da cidade. Campanhas massivas eram feitas  nessa época. Todavia era possível ver  pequenos balões aos quais chamavam de chinesinho. O céu, nessa época, ficava salpicado deles. Subiam e logo  caiam. Tinha para quase todo mundo. Valia a pena correr pelos campos orvalhado e espinheiros, atrás de um desses. Com certeza, valiam mais que as varetas dos rojões. Os marmanjos ficavam sempre de alcateia aguardando para assaltar e ainda fazer troças, mas, quase sempre os pequenos conseguiam sair ilesos com seu troféus às mãos.
Conta  a história que certa noite de junho, Natalino se viu em apuros após conseguir pegar um desses balõezinhos.  Quando entrou na rua onde morava, viu-se cercado por uns cinco  garotos mal encarados, da outra vila. Porém com a ginga e rapidez que Deus lhe dera conseguiu driblar um a um até chegar no último que era enorme. Parou à sua frente, gingou pra lá gingou pra cá até conseguir passar por entre as pernas deste como se fosse uma bola . num jogo de futebol. Quando o grande se virou, o franzino Natalino já estava a um tiro de pedra de distância. Embasbacados, não acreditaram no que acabara de acontecer. Prometeram pegá-lo mais tarde, felizmente isso não aconteceu. E assim o menino Natalino chegou em casa levitando de alegria e júbilo pela dupla façanha conseguida.

Na quermesse do senhor João Tibúrcio as famílias se confraternizavam.  Espalhados pelo terreiro, contavam histórias e riam. Alguns namoricos aqui, acolá, alguém pisando em ovos por abusarem demais das bebidas e na vitrola próxima à porta, velhas canções eram ouvidas e dançadas também. Porém os meninos, seguindo um rito tradicional, não tiravam os olhos do céu. O céu que naquela noite estava  se derramando de estrelas, sem contar uma  lua quase crescida, bem na cumeeira da igreja.
 Não demorou e  alguém deu o alarme!
__ Um balão! Sussurrou.

Era um balãozinho de seda parda que mesmo se esforçando  não conseguia mais subir, caia num capinzal.
__ Vai cair perto dos trilhos, o vento tá mudando. Afirmou Frederico
__ É só nosso, não tem ninguém por perto!. Confirmou  Natalino.      

Saíram  os três em desabalada correria  até uma várzea onde o balãozinho supostamente havia caído. Mas quando lá chegaram algo diferente chamou-lhes a atenção.
__ Ah! não, caramba carambolas o que é aquilo! Exclamou Natalino, chegando primeiro ao local.
__ Esquisito, não é um balão! E como brilha! Espantou-se Frederico.
__ Então vamos sair daqui agora, corram! Desesperou-se Samuel.
Começaram a correr, Natalino e Samuel, mas Frederico ficou estagnado, olhando aquelas luzes...Gritou natalino:
__ Corre besta!
Frederico parecia uma estátua, então os dois voltaram para resgatá-lo, todavia quando chegaram perto um aro de luz azulada prendeu-os pelas canelas, imóveis, apenas mexiam os olhos e o que assistiram nunca mais esqueceriam. Entre  uma fina ramagem estava um objeto em forma cilíndrica com luzes laterais na cor verde, que pairava sobre um riacho que ali  havia e  margeava os antigos trilhos da city. De seu bojo saia uma luz alaranjada que aparentemente parecia recolher água ou outra coisa desse riacho. Não demorou e o facho cor de laranja se recolheu, a nave ou seja o que fosse, deu meia volta e desapareceu silenciosamente no espaço como uma lâmpada que se apaga. Os aros azuis também se apagaram libertando-os. Trêmulos correram o quanto puderam. O balãozinho e a festa, tudo, ficou para trás mas na memória deles, tudo ainda parecia estar acontecendo.
Os dias que se seguiram foram para eles, muito estressantes. Mal se alimentavam, na escola estavam dispersos durante as aulas e quando se encontravam, evitavam falar sobre aquele acontecimento. As marcas deixadas pelos  aros da cor azul, ainda estavam em suas canelas como a provar a veracidade do acontecido, mas aos poucos foram desaparecendo.

É curioso que na história da humanidade sempre se observaram nos céus  tais objetos luminosos e que para cada período deram a eles nomes bem curiosos:
Aristóteles, conhecendo bem  os jogos de lançamento de discos, modalidade esportiva praticada por atletas gregos da época, deu aos objetos observados o nome de discos celestiais.- Alexandre “ O Grande” familiarizado com as armas de guerra comparou-os  com grandes escudos prateados. – Nos tempos das grandes navegações e descobrimentos esses objetos foram chamados de barcos voadores. E seguindo essa tendência, os meninos, agora mais relaxados, chamaram-no de; Tambor voador.

Tudo o que acontecera naquela noite, ficara então entre eles. porém dali uns quinze dias após, a tranquilidade do lugar foi quebrada e de forma  pouco recomendável.
Era um sábado de manhã e Frederico amanhecera resfriado, coriza abundante e tosse seca. “ Constipação” disse dona Gemima, a avó do menino, ajudando na faxina de final de semana que rapidamente tirou de um pequeno armário uma   espécie de maleta onde havia carreiras de vidrinhos de remédios homeopáticos.
__ É gelsemium e pulsatilla disse, destacando dois frasquinhos de cor âmbar e identificados por pequeno rótulo pardo.

Mal o menino dissolvera sobe a língua os glóbulos branquinhos e doces do remédio, turuna e os demais cães da vizinhança começaram a latir sem parar. Em meio a isso entrou  Aninha que acabara de chagar da escola, entrou aos gritos dizendo:
__ Frederico! Frederico! Tem gente te chamando lá no portão.
__ Quem é?
__ Ah! não perguntei.

Lá fora havia um automóvel escuro e sem placas. Eram quatro homens de tamanho avantajado e caminhavam como autômatos. Protegiam as feições usando bonés e óculos escuros. Um deles falava com sotaque.
Faziam parte de uma comissão  internacional que investigava eventos sobre   ovinis. Logo o portão da casa estava num burburinho de gente, gente que mal sabia o que de fato estava acontecendo.
__ Quem são vocês e o que querem? Perguntou pausadamente seu Bernardo.
Após se identificarem, o pai de Frederico ficou muito preocupado então procurou de todas as formas proteger seu filho. Chamou-o ao lado e pediu que negasse  tudo o que acontecera, o que presenciara naquela noite.
 Todavia aqueles homens eram implacáveis no  interrogatório e  Frederico estava quase em choque, justo pela forma como era abordado, sua cabeça estava num emaranhado de coisas, não conseguia falar duas  palavras na sequência fato. Um dos homens  parecia mais exaltado mas foi logo contido pelos próprios colegas. Nada conseguiam extrair do garoto, ficando o ambiente  cada vez mais tenso.  Foi quando apareceu  Samuel e o Natalino. E foram os dois amigos que  acabaram resolvendo a situação. Percebendo o que estava acontecendo, através de gestos disfarçados do interrogado, naturalmente falaram de Gagarin, chegando até a história do Tambor voador...
__ Mas vocês estão brincando, isso é uma brincadeira? Bufou  o que falava com sotaque.


E algumas crianças que haviam participado daquela brincadeira lá  atrás, de forma inocente confirmaram: __ “Brincadeira sim”! inclusive o agente do jornal do bairro que esteve ali presente naquela tarde. Lá no fundo do quintal aquela traquitana ainda estava montada servindo de argumento, menos para aqueles  homens. Tiraram o  encerado que cobria  aquilo... Era difícil saber se estavam constrangidos ou ainda mais  raivosos diante do que lhes fora mostrado. Por cima dos óculos olharam um para o outro e depois deram as costas sem nada dizer,  entraram no carro e  aceleraram..
Então o vilarejo voltou à sua normalidade. O incrível é que o ocorrido na  véspera de São João, ficou somente entre  os três e seus familiares.

Numa manhã de agosto, reinício das aulas, Frederico e Samuel encontraram o amigo Natalino emburrado e espumando de raiva.
__ O que foi cara? Acudiu Frederico.
__ Aqueles carapangas da vila de cima me xingaram e disseram que ali não é lugar de negro passar, só isso!
__ Aqueles almofadinhas que se mudaram a pouco tempo? Liga não, são uns otários. Respondeu Frederico.
__ É, pra você é simples porque você não é negro. Ainda quebro a boca daqueles filhos da mãe!

Diante daquela ferocidade e quase descontrole  do amigo, prosseguiram até o portão da escola, sem nada dizer.
Infelizmente a vida de Natalino não andava lá muito bem. O pai abusara tanto da bebida que acabou perdendo o emprego. A mãe, com dificuldades para criar os filhos resolveu tirar Natalino da escola e colocá-lo para trabalhar, e assim o fez.
__ Não mãe, eu não quero sair da escola não, eu quero estudar ser  piloto de avião!
__ Piloto o quê? Deixa de bobagem, você não nasceu pra isso viu? Isso é coisa pra outra gente, você vai é trabalhar é agora, tá ouvindo?

No dia seguinte, com os olhos ainda marejados, o menino apanhou a caixa de engraxate que a mãe já havia encomendado e saiu para  ajudar a sustentar a família, adiando ou quebrando para sempre o seu próprio sonho.
A rotina agora era levantar bem cedo e rumar para o centro da cidade, carregando, ao  invés de livros uma pesada caixa de madeira. Com a penúria com que estavam vivendo, sua mãe conseguiu um barraco  no mangue e para lá se mudaram.
Nunca mais  aconteceram a brincadeiras, nunca mais os três. Natalino tinha vergonha se se encontrar com os  amigos. A amizade ficou distante como aquele   sonho que alimentava. Tudo ficou amargo, triste para todos.






CAPITULO-III

(Continua)