sábado, 27 de dezembro de 2014

Dois Vasos





Foto. internete. Google.




Talvez a argila
Que me havia composto
Estivesse impura
E as minhas formas
Não tão equilibradas,
Se devesse
À inaptidão do oleiro.
Mas, na minha serventia
Guardei a água,
Mantendo-a fresca.
Agasalhei flores silvestres
Alegrando humilde mesa.
Diferente de ti;
Peça rara, preciosa, valiosa...
Sobre sedas suntuosas
E cuidados desmedidos.
Mas, um dia
Tu também foste ao chão.
E olhando os nossos cacos
Imprestáveis, num monturo
Quase não a reconheci.!



José Alberto Lopes®
set. 15/2012

Fotos e Fatos/


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Praia de musgos









Praia de musgos




Quando Vargas desceu no largo da igreja de Bom Jesus e respirou uma cidade ainda pouco mudada em mais de quarenta anos, sentiu-se novamente em casa. Que alegria rever o mar pequeno, o morro do Espia, o preguiçoso rio Ribeira de Iguape, as ruas de pedras irregulares, os casarios coloniais. Até as pessoas  dali pareciam as mesmas de sempre.
Porém ele deixando a cidade ainda cedo, não teve talvez a oportunidade de receber um pouco daquela imunidade contra a  rápida passagem do tempo! A neve tomara seus cabelos e usava  uma bengala como arrimo.
Caminhou até a rua principal e parou próximo à  porta de um antigo casarão onde nascera e vivera  a infância e adolescência. Ali permaneceu um bom tempo, examinando o passado.

E foi por uma daquelas enormes janelas, quando ainda era menino, que viu passar pela primeira vez aquele anjo, a musa perfeita, a flor que nenhuma primavera seria capaz de traduzir. Sorriu para ela e arquitetou um mundo. Passou a cortejá-la em pensamento e sua  alma de poeta menino adoeceu. Quando na rua ela passava, o menino largava a brincadeira e ficava estático observando-a. Depois corria  para casa e rabiscava um poema.
Coisa de menino, naquela tarde ficou atocaiado entre a porta e a janela esperando ela  passar. E ela passou. Voltava do colégio, vestida de azul e branco a linda normalista. Aí, a alma do menino quase se desprendeu daquele corpo frágil e trêmulo. Deixou que ela ganhasse certa distancia e timidamente a seguiu. No bolso levava um poema e no peito um coração dilatado de ansiedade e paixão. 
Alguns passos e antes que ele a abordasse, foi como se de repente uma tormenta caísse deixando o seu coração à deriva. Aquele anjo, musa perfeita, flor rara, já pertencia a outro alguém.
Transtornado, mesmo assim não pestanejou em rasgar o poema ali mesmo. Rasgara com gosto e ódio, tanto, que se pudesse rasgaria a própria existência.
Naquelas ruas quase desertas somente o céu deu testemunha de que o poema   agonizara por horas rolando pelo chão como folhas de outono.

Agora, ali estava ele, homem feito e já erodido pelo tempo. Caminhou lentamente pela rua do Funil até a margem do  rio Ribeira. Lá solenemente abriu um pacote  onde havia uma garrafa, e dentro dela um poema.
Não muito longe dali, o estuário, o destino do rio. Lá, o mar ansioso o esperava de braços abertos. Vargas olhou demoradamente  para a garrafa, despedindo-se dela, e  num gesto  quase bruto lançou-a no rio dizendo:
__ Vá! Vá! Vá!..

A cortiça justa a mantinha hermética e seguiu flutuando a meio corpo levando em seu bojo  um sonho desfeito.....
Logo a perdeu de vista, pois o rio engalanado pela ardentia daquela linda tarde ficara como se milhões de garrafas flutuando, brilhassem tangidas pelo sol.
Finalmente o Nautilus de cristal ganhara o mar. Nauseante, resvalou  num casco moribundo, depois, num arrecife arredio. Algumas gaivotas curiosas a cortejaram além da  arrebentação, pra depois deixá-la só naquele infinito mar, pois  a noite já  abrira as negras asas e uma procela se levantava  à sua retaguarda. Pávido, prosseguia.

Vargas por sua vez, sentiu que  já era tempo de ir embora. Olhou pela ultima vez toda aquela imensidão e caminhou suspirando desaparecendo lentamente  pelas acanhadas ruelas da cidade.
Algumas pessoas comentavam:__ O que fazia  aquele homem ali desde aquela hora?

Após a borrasca o céu se abriu novamente e o cruzeiro do sul sorrindo, parecia apontar para a garrafa o caminho a seguir.
Por sorte, livrou-se das correntes em círculos e daqueles demônios que arremessam mortais vagalhões contra os rochedos.
Depois veio brisa afagando as cristas espumantes e quase tudo parecia adormecer. Quando a ultima alva se esvaia no céu, viu-se sobre longo tapete de algas à flor da inconstância do mar, até que de súbito arremessada foi sobre escombros numa praia de musgos, e lá permaneceu por muitos anos.
 Numa certa manhã por  ali brincava uma criança alada e nua, portando um arco e flechas, que encontrando a garrafa, recolheu-a e curioso decifrou aqueles hieróglifos de amor poético..

Na verdade, a garrafa continha um poema de um antigo escritor Cabo-Verdeano chamado: Manuel Lopes.1907/2005


A Garrafa:


Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
__ se foi criança
ou o ladrão
ou o filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si e para os outros.

Que se destrua contra os recifes
ou role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja vista por olhos humanos,
Que importa?
...se só de atirá-la às ondas vagabundas
libertei meu destino da sua prisão?..

(poema de Manuel Lopes)


Obs: Só para constar. Esse texto, eu escrevi  como um poema em 2006. Em 2014 resolvi transformá-lo em uma prosa (ou conto?) Somente agora, encontrei esse  poema antigo de  Manuel Lopes que fala sobre o mesmo assunto e até sobre o caminho da garrafa que continha um poema... 




Conto de José Alberto Lopes - 11/09/2014














quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Samba Americano


Samba Americano
(Série seriado de TV- I Parte)


Se eu pudesse entrar nas fitas
do cinema americano
e encontrar o velho Zorro
num rancho Californiano!
arreando o  belo Silver
para mais uma contenda,
e também o índio Tonto
descansando numa tenda!

No Forte Apache eu iria
reencontar o Rin-Tin-Tin,
que maravilha de cachorro
fala inglês e até Latim. (aum aum)
Com patente de tenente
e um jeito de moleque,
o antigo Cabo Rusty
assistindo a Star Trek!

Encontrar o Flash Gordo...n
dentro de um SPA, morando.
Ele quer voltar à forma
para prosseguir filmando.
Mongo e Ming estão extintos,
foi um tiro de bazuca.
Quer filmar fatos da vida,
tipo, água com açúcar!

Ver o Papai Sabe Tudo
sempre com seus bons conselhos
e os Lanceiros de Bengala,
sempre fiéis aos estrangeiros.
Encontrar  o Jim das Selvas
Junto co'a macaca Tamba,
mostrando que na floresta
quem não for malandro, samba!

O Tarzan e a bela Jane
no alto de uma galhada.
E a Chita num cipó
se acabando em gargalhada.
Bat Masterson de preto,
aposentou-se da batalha.
Só não deixa o velho Poker
e também sua bengala.

Montando o seu velho Trigger
O Roy Rogers na fazenda.
Hoje só cuida do gado,
morando  numa vivenda!
Só do Homem Invisível,
não há muito o que dizer.
Vive só pregando peças
e  não quer aparecer!

Faço aqui a minha pausa
para os comerciais.
Os reclames de outrora
hoje não se veem mais.
Se os Yankees  me pegarem
grito logo por socorro!
Se eu tiver  que pagar Royalties
to no mato sem cachorro!


De José Alberto Lopes.
27/08/2014