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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A mesma Paisagem








        Ah! Aquela gente. Conheci muito aquela gente. Gente brava do sertão, gente fiel às coisas lá do céu, sempre cumpridora das suas promessas, embora também muitas vezes vivendo de promessas vãs.
       Gente que embora baldadas todas as esperanças, mesmo assim se mantinha serena na luta repetindo palavras de resignação.  Resignação que muitas vezes era sinônimo de êxodo!

        Nessa altura os providos de asas já haviam arribado. A roça não vingara, o umbuzeiro definhava aos poucos. Somente o xiquexique ainda resistia parecendo desafiar o sol inclemente com seus agudos espinhos e suas flores vivazes. Os sons dos chocalhos nos  animais, assim como os aboios pelas caatingas, há muito tempo já não se ouviam.
       Foram tempos de secas terríveis. Do quê valeram as coivaras se tudo se resumia afinal, numa queimada só? O lugar tornara-se inóspito e o solo estéril, como um planetoide perdido e hostil, sendo bombardeado por cargas e cargas de raios flamejantes. Um planetoide habitado por sertanejos, que por mais bravos que fossem, num momento, tinham que desistir.
       A família de Moisés foi uma das últimas a partir. Do pouco que tinham, pouca coisa eles levavam, mas a esperança não era pouca.      Apenas se retiravam como um regimento se retira estrategicamente para depois em favoráveis condições, promover o contra-ataque colocando o inimigo à sua mercê. Retornariam assim que o verde retornasse por aquele sertão que ora deixavam pela segunda vez.
       Antes da partida, vovô Venâncio, num de seus momentos de lucidez, insistiu para que levassem também um pedaço de tição que se afigurava a uma imagem, que acreditava fosse de uma santa... Aquela imagem tosca esculpida pelo fogo era o arauto das boas novas que haveriam de vir. Assim acreditava o velho senhor. Sua vontade foi respeitada, embora contrariasse a Moisés, homem há muito tempo descrente das coisas da igreja, não das coisas do céu.
       Partiram antes de o sol chegar. Na boleia da velha carroça se acomodavam Maria, grávida de quatro meses e Venâncio seu sogro. O menino João acompanhava o pai marchando com suas franciscanas sobre aquele chão esturricado e poeirento.
       O céu era de um azul vivo e limpo, só perturbado por nuvens negras movendo-se mansamente. Nuvens carniceiras se equilibrando nas termais, com seus olhos aguçados, que girando em grande círculo só aguardavam a hora e vez... Aliás, as únicas providas de asas que não arribaram.
       Passaram por leitos secos de ribeirões, por glebas abandonadas e por várias carcaças de animais que visto de longe mais pareciam quilhas expostas de antigas embarcações.
       Após um dia de viagem aportaram num pobre vilarejo. Depois de tanto tempo se alimentando basicamente de jacuba (água misturada com farinha de mandioca e açúcar) experimentaram o luxo de um naco de pão.

       - Estão indo pra onde? Perguntou o vendeiro.
       - Pra capital. Respondeu Moisés ainda mastigando.
       - Mais uma semana fecho aqui e também vou embora, se não a gente também morre feito gado no campo. Disse.
       - É, essa é a pior que já vi por essas bandas. A última chuva que caiu faz quase um ano, e só serviu pra engabelar. Nem deu pra molhar  as cacimbas. Estendeu-se Moisés.
       - É verdade, nem São José ta dando jeito. Mas se Deus quiser, as coisas melhoram. Amenizou o vendeiro.
        - Tomara! Concluiu Moisés pagando a conta.

       Naquela noite ficaram por ali mesmo. Moisés desatou a mula da carroça dando-lhe um fôlego, pois no dia seguinte atravessariam o pior trecho até a cidade mais próxima.
       Sob um céu empoeirado de estrelas, dormiram. Menos Moisés que passou a noite toda em vigília, com a alma amargurada e os olhos brilhantes como aquelas estrelas.
        No dia seguinte, antes que a barra do horizonte sangrasse, partiram.
       O chão rachado parecia um estranho mosaico, mas lá em cima, o céu com sua imponência azul, continuava com aquelas nuvens negras girando, girando. A marcha prosseguia árdua, cansativa, constante.    Somente o reboar dos cascos naquele chão duro quebrava aquele silêncio, além dos redemoinhos que, de vez em quando atravessavam o caminho que seguiam. Girando e assoviando, pareciam entes zombeteiros com suas bocarras assoprando as coisas do chão.

       Na tardinha quando o sol poente espichava as sombras pelo chão, após terem caminhado algumas léguas, a velha mula deu sinal de fadiga.    Extenuado, o pobre animal dobrou os joelhos. Moisés e o filho João tentaram debalde levantá-la. Com a boca branca de espuma e os olhos vidrados ela deu um breve suspiro e morreu. Era sem dúvida mais um banquete para aquelas famigeradas nuvens lá em cima.

       Jogados então à sorte, permaneceram por um bom tempo ali na margem da estrada.
       Maria, como era de costume, assim que pressentiu a tardinha, agarrou a rezar. E rezava todas as rezas que aprendera desde menina e o que aprendera não era pouco. Seu Venâncio permanecia estático, sem atinar em nada. Por sua vez, Moisés sentindo-se incomodado caminhou uns dez passos para frente e sentou-se sobre uma grande pedra e lá permaneceu quase imóvel como se fizesse parte da mesma até o término da ladainha. João o acompanhou.
       O sol insistia com seus últimos raios quando um caminhão levando algumas famílias apareceu em meio a uma densa poeira. Por sorte se dirigia para o mesmo destino. Embarcaram.

       A imensa serra ficando para trás, já se apequenava no horizonte.   Mais parecia um risco azul-escuro já quase consumido pela distância e o negrume da noite. O ronco luxuoso do motor e os sacolejos constantes induziram ao sono aquele homem alquebrado, abichornado. Moisés sonhava com um lugar onde os liquens cobriam eternamente as pedras.   Onde um simples golpe de enxada liberava o cheiro fértil de um chão úmido, e as veredas perenes trazendo abundância e vida para todos.
       Porém, a freada abrupta do caminhão, cortara-lhe o fluxo que alimentava aquele sonho sonhado! Chegaram. A realidade era amarga, seca, empoeirada. Cheia de cansaço e dúvidas.
       Era uma cidade pequena, que embora também sofresse as consequências da seca, ainda assim resistia.
       Aquela noite passaram sob a marquise de uma acanhada estação rodoviária. No dia seguinte condoído com aquela situação, um conterrâneo dividiu a própria casa com eles. Embora agradecido pela ajuda daquele Cirineu moderno, Moisés sentia-se humilhado. Seu orgulho de homem acostumado com a lida no campo estava ferido. Para ele, um homem sem teto e trabalho, valia menos que uma folha que se desprende de uma árvore. Então, possuído por uma ira desmedida, apoderou-se da primeira coisa que viu à sua frente. O santo do pau queimado. Sem que ninguém notasse, atirou-o no mato que havia do outro lado da rua e blasfemou muito!
       Na tarde daquele dia, seu Venâncio, saindo momentaneamente do estado de ausência, deu por falta do seu objeto santo e ficou nervoso.
       - No desembarque do caminhão, deve ter sido extraviado. Disse  Moisés sem hesitar, olhando para o infinito. Em poucos minutos o velho voltara à sua normalidade e a história do objeto santo foi esquecida.

       Passado uma semana, a preocupação de todos agora, era conseguir dinheiro para a passagem que faltava. Trabalho era difícil, e o ônibus que seguiria para a capital partiria dali três dias.
       Então resolveram abrir uma cabaça que muito pesava e que o velho guardara por muitos anos, com muito esmero e ciúmes.  Aquilo era um segredo enorme para todos, menos para João. Aproveitando o estado de ausência do velho apoderaram-se do objeto.
       Assim que a entornaram, uma espessa entranha metálica saltou do bojo escorrendo pelo chão batido. Eram moedas, sim, muitas. Uma alegria então percorreu a face de todos. Porém aquele metal escurecido e barulhento, já não tinha mais valor de troca. Já estava fora de circulação há muito tempo. Decepcionado e nervoso, Moisés saiu para fumar enquanto sua mulher e o filho devolviam aquelas inúteis moedas para o improvisado cofre.

       Mas o espírito do velho, parecia querer desistir de seguir a  viagem. No dia seguinte aconteceu um corre-corre. O velho Venâncio sofrera outro mal súbito.
     - Doutor por aqui? Só uma vez por mês, e quando vem! Disse um morador. E concluiu – melhor procurar o seu Caculé, o raizeiro daqui.   Esse já curou muita gente com suas garrafadas.
       - Onde? Perguntou Moisés com o rosto franzido de sol.
       - Meia hora a pé por aquele caminho, indicou o homem com a ponta do cachimbo.
       Agradecendo, Moisés e João saíram apressados.
Andaram um bom pedaço quando deram com uma multidão em frente a um casebre.

       - Caculé, o raizeiro? Perguntou Moisés ofegante.
       - Não! Na quinta casa descendo.  Disse uma mulher.
       - E o que é isso aqui? Inquiriu.
       - Milagres! Responderam três ao mesmo tempo.
       Explicaram-lhe que uma santa de madeira fora encontrada num lugar ali perto, e trazida para casa começou a realizar milagres. Muitos milagres.
       Então curioso, resolveu ele atestar isso de perto.
       Com muito custo conseguiram chegar até uma tosca janela que dava para o único cômodo da casa. Então ficaram perplexos ao verem o motivo real daquela epifania que alvoroçava toda aquele pobre gente.
       - Olha lá pai, aquilo não é a santa do vovô?
       De início o homem ficou reticente, depois bradou para que todos ouvissem.
       - Pois é sim, aquele pedaço de tição que mal cozinhava o feijão, agora faz milagres! E saiu balançando a cabeça e se acotovelando naquela multidão pobre e carente até ganhar a rua.
       A sua perplexidade só não foi maior, porque não vira o que seu filho João presenciara. As pessoas pagavam com o que podiam, para chegar perto da tal divindade... Não que a dona da casa exigisse, mas as promessas de milagres eram tentadoras.

       Quando retornaram trazendo a garrafa prescrita, encontraram Maria aos prantos, nervosa.
       O velho não resistira. Consolando um ao outro, fizeram a única coisa que podiam. Sua marcha pela terra findara.  Envolto num morim puído o seu corpo entregue ao chão, logo se integraria àquele pó vermelho que há muito tempo também não recebia o afago da chuva.    Nem padre havia naquele momento para encomendar a alma daquele pobre homem. Disseram que estava num almoço lá na casa de certo coronel. Sem lápide, apenas uma pequena cruz marcada com um número, indicava o local.

       Com a ausência do velho Venâncio, ironicamente o dinheiro que possuíam foi a conta exata para comprarem três passagens.
       Consternados, finalmente partiram. Para trás, deixavam uma significativa parte da vida, e  levavam consigo muitas lembranças. Para o futuro, mesmo sabendo das dificuldades, o sertanejo carregava muita esperança. No ônibus indo para a capital a marcha continuava. Lá fora uma lua  solidária viajava também.
       Maria, com um filho no ventre, fugia para um lugar seguro, longe daquela atmosfera herodiana.
       Moisés, liderava a marcha conduzindo a sua gente atravessando o agreste e a insolação vermelha em busca de uma nova Canaã.




Um conto de José Alberto Lopes-
SBC-19/07/2012
[edição melhorada em 10/05/2013]

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