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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Além do Arco-Íris (I)




Há fatos que acontecem em nossas vidas e que tentamos de qualquer forma atropelar o tempo para que logo tudo caia  no esquecimento. Esquecer, pura e simplesmente, não é  tarefa fácil, não é página que se rasgue, e pronto!! tudo resolvido. Mas, a luta do dia a dia para não me lembrar daquele acontecimento, livrou-me de escorregar para o abismo da  loucura! A mim e ao meu companheiro de jornada.
O meu propósito era esquecê-lo para sempre. Todavia hoje, passado mais de três décadas, resolvi quebrar a minha promessa e escrever sobre ele.
 Bem afastada do continente, ficava a ilha das pedras.
  Por essa condição estratégica, a ilha abrigava uma  prisão de máxima segurança. Lá estavam encarcerados pessoas com ideologias contrárias ao regime instalado naquela época, e também  criminosos  comuns, facínoras como Radun, dentre outros. Cumpriam perpétua!
 Partimos enquanto uma borrasca se levantava lá no mar.  Eu e o sargento Zara. Era uma viagem curta, de uns quinze  minutos, já rotina até a Ilha. Porém, assim que decolamos,  recebemos um comunicado nos alertando sobre uma rebelião na qual empreenderam fuga, Radum, Libéllus e Solares,  dentre outros.
 Na distância em que nos encontrávamos, era possível ver um rolo  escuro de fumaça que lentamente subia da pequena ilha. Com certeza, a rebelião já ganhara grandes proporções.
A borrasca por sua vez, ia se dissipando, deixando no céu um lindo arco-íris que parecia se posicionar bem à nossa frente. Voávamos  a baixa altitude e assim que cruzamos o enorme arco colorido percebemos algo anormal nos instrumentos de navegação. A comunicação foi ficando cada vez mais débil até se anular por completo. Parecia que estávamos voando numa zona morta.
A nave começou a trepidar e a derivar para estibordo sem obedecer aos comandos. Ficamos temerosos, pois a aeronave continuava trepidando, como tivesse sendo peneirada e  ao mesmo tempo, parecia ser sugada por um funil numa velocidade estonteante, fora dos padrões normais que uma aeronave daquela categoria poderia resistir. A fuselagem parecia desintegrar-se junto a   um ruído ensurdecedor.
Não sabemos quanto tempo aquilo durou. De súbito a estúpida força foi diminuindo, diminuindo, até que tudo se acalmou. O motor não funcionava mas, a aeronave flutuava num denso nevoeiro até que pousou mansamente num platô próximo a   um pântano. Inacreditável, parecia um pesadelo sem fim.
- Que lugar é este? Perguntou um tanto aturdido,  o Sargento Zara. E eu também aturdido, respondi. __Logo saberemos. É uma  ilha, porém não é  a Ilha das  pedras  com certeza não é.
Não estávamos sós. Um punhado de pequenos  guerreiros que lembravam pigmeus assomou a certa distância de nossa aeronave. Tinham a pele  cor de cobre e eram secos de carne. Não pareciam hostis pois responderam de forma amistosa aos nossos sinais.
Abri a carlinga e descemos com algum cuidado sob os olhares atentos e curiosos daqueles homúnculos que ainda permaneciam estáticos. Alguns segundos de tensão  e todos baixaram suas lanças de  pau e pedra.  Dois deles saíram do grupo e avançaram  alguns metros em nossa direção. Livraram-se das tocas que cobriam-lhes a cabeça, e eram dua mulheres. Falando em mímica,  a mais velha delas pediu que os acompanhassem. Há uns novecentos metros dalí  havia uma pequena aldeia, bem primitiva. O único caminho para se chegar até lá  era pelo mangue, cheio de armadilhas naturais. Sem  nenhuma opção, seguimos.
Depois de dura caminhada sobre o lodo e em meio a uma vegetação fechada, chegamos. Na parte  mais alta  havia uma casa de pedra com três janelas, e de dentro saia uma fumaça azulada.
Um velho bem alto, arqueado sobre um báculo nos recebeu. Tinha longos e fartos cabelos brancos, arrematado  por um chapéu de couro duro. Tinha a  face macilenta, olhos azuis e falava a nossa língua. A combinação era perfeita, lembrei-me de Gulliver e a ilha de Lilliput. Entramos.
- O senhor não me parece nada surpreso com a nossa presença. Disse, observando cada canto da casa.
- Digamos que de certa forma  já os esperava!
- Não entendi a brincadeira! Retruquei.
- Não é  brincadeira!Entenderás logo!
Ignorei  as réplicas, pois achei que ele estava mesmo brincando conosco, ou não passava de um louco. Então   me apresentei:
- Sou o tenente Lopeck, e esse é o sargento Zara.
- Pode me chamar de Burlog, Capitão Burlog.  Disse ele apontando com o báculo para que sentássemos.
Sobre uma taipa, um improvisado fogão feito com três pedras, onde se assentava um caldeirão de barro, fumegava uma espécie de sopa que por sinal cheirava muito bem. Com seu modo meio desajeitado, mas, dócil, convidou-nos para cear com ele. Uma  cabaça de mel e uma espécie de pão completavam o jantar.
Um castiçal tôsco feito  de madeira com três velas, que pendia do teto escuro sobre  a nossa mesa, mal clareava aquelas paredes fuligentas, e também aquele rosto grande acolhido pela aba do  chapéu. Para sermos  cordiais aceitamos uma água.
Enquanto ceiava voltamos a falar sobre aquele lugar, sobre a nossa chegada, sobre o nosso futuro...Sobre o mistério de estarmos ali, sem mais , sem menos.
- Em que lugar estamos? Perguntou Zara.
- Atrás do seu tempo! Respondeu de forma natural, mastigando sem parar.
- Mas isso não responde nada! Retruquei.
- Estão aqui para nos  ajudar... e um dia vocês entenderão isso!
- Então não viemos aqui por acaso? Perguntou Zara num tom  de caçoada.
Ignorando o que dissera  o sargento, ele continuou:
- Alguns  piratas  chegaram até a nossa ilha.  Já saquearam quase tudo o que puderam.  Mataram muitos  ilhéus. Aqui, já não se ara a terra faz muito tempo. Os nossos celeiros definham. Logo, logo, morreremos de fome. Como vocês podem ver, aqui só sobraram velhos, mulheres e crianças. Mas a cobiça maior são as pérolas  que há por aqui, e para pegá-las, é preciso mergulhar bem fundo, e somente os ilhéus podem fazer isso, e por essa razão, também  os escravizam e os matam de tanto trabalho. Logo chegarão até este  reduto. Nos encontrarão como urubús sabem da carniça, e levarão o que resta de nossas  provisões.
- Sim,  não deixa de ser uma  uma estória de aventura..Deixa eu entender isso... Disse o sargento.
- É um fato, e não uma estória.  Replicou o velho.
- E por quê você acha que temos que salvá-los?
- Vocês estão aqui, não é...?
- Do que você está falando?
- Nada de mais! Disse o velho capitão, dando de ombros e levantando os braços.
- A nossa aeronave? Ficou lá perto do pântano!.... Insinuei...
- Miserável. Disse o sargento  ameaçando o velho com sua arma!
- Por favor, pediu ele!
Encolerizados, demos as costas   e tentamos  sair da casa. Porém, sua voz de trovão e  sua pesada mão me deteve:
- Por favor. Acreditem em mim, precisamos de sua ajuda. Tudo escrito está. Logo voltarão para casa sem nenhum problema. Mas agora, precisamos da ajuda de vocês. Sua nave está no pântano, no mesmo lugar  e camuflada com arbustos de mangue, podem ir até lá e constatar, levem nossos guias! Mas, depois voltem para nos ajudar.Sou velho demais para isso, e   aqui só tem  mulheres e crianças. Por favor. Insistia o velho  capitão Burlog. E continuou:__É uma longa história a minha. Fui Náufrago, e isso foi  há muitos  anos, um dos poucos  que se  salvaram, e  estar  aqui vivo, devo à esses pequeninos....
Não sabemos explicar, mas, no momento em que chegamos até a nossa aeronave,  vimos que tudo estava em ordem. A nave funcionava perfeitamente e o painel indicava uma viagem ainda em curso.. Continuamos a não entender   aquilo,  porém, algo nos amoleceu o coração e voltamos.
Acalmada a situação, pagamos pra ver até aonde essa história nos levaria e aceitamos a empreitada.
Na  manhã seguinte a aldeia acordou em polvorosa. Não era por causa da tempestade que vinha lá do alto mar. Era por causa dos piratas. Eram eles afinal. Existiam sim!
Nessa altura, os facínoras e  a tempestade eram as únicas coisas que cheiravam à realidade.  Com nossas armas modernas, não foi difícil enfrentá-los. Por estarem em desvantagem bélica, preferiram fugir para uma pequena embarcação que estava fundeada a poucos metros  da praia. Na fuga, dois caíram mortos e o rosto de um deles  pareceu-me familiar. Os outros três conseguiram chegar até o barco.
A tempestade chegou forte com rajadas violentas provocando enormes ondas que partiriam ao meio um encouraçado em poucos minutos.
Dali corremos para o abrigo, uma pequena caverna, mas a    nossa aeronave nos  preocupava.
Saímos para chegar à ilha das pedras e chegamos  a uma outra ilha que se chamava, ilha das pérolas...que nunca soubemos exatamente  onde ficava.
Dois dias depois da  tormenta encontraram os corpos dos outros três, roídos de peixe largados numa pequena  praia.
Dessa forma, a ilha se viu livre daqueles piratas. Mas antes, os  pequenos, fizeram um lastro de pedras e amarraram no que sobrara dos corpos e os atiraram de um penhasco. Acreditavam eles, que dessa maneira o espírito mal  de cada um  daqueles homens ficaria lá  até que a profundeza do mar os redimisse.
- Será que estamos alucinados tenente?
- Tomara que sim, pois somente isso poderá explicar o inexplicável!
Aquele povo triste voltava a sorrir depois  de tanto tempo sob o jugo daqueles homens. O velho  Capitão Burlog, chorava, mas, era de alegria! Celebraram a liberdade como algo mais precioso do mundo. Não trocariam aquela vida por toda pérola que havia naqueles mares.
Gritavam palavras de agradecimento. Dançavam e cantavam ao som de tambores, em volta de uma grande fogueira, cujas chamas pareciam levar aos céus todos os seus louvores.
Já era madrugada quando nos levaram até a nossa aeronave. Uma procissão de gente carregando suas tochas serpeavam a densa mata. - Como voltaremos? Ia pensando, enquanto, embalados por aquela cantoria seguíamos. Mais tarde entenderíamos porque partimos de madrugada. O tempo estava limpo. Uma extensa poeira de estrelas piscava naquele céu, um céu diferente.
Chegamos. O capitão Burlog tomou a palavra e nos agradeceu muito. Aquele rosto macilento, agora se apresentava corado, alegre!
Esticando seu longo braço, apontou-nos uma constelação cujo nome não me lembro, mas que significava: “Buraco ou fenda” e disse, com os olhos marejados:
- Sigam naquela direção, e o tempo se encarregará do resto. Não se preocupem com nada, tudo findará bem. Embarcamos, mais uma vez ovacionados por aquela gente.
Novamente ficamos sem entender absolutamente nada. Tudo se repetiu, agora de maneira inversa. A estúpida força agia nos expulsando pelo mesmo funil da entrada. A trepidação.. o medo.. a tensão. Tudo se repetiu!
Não sabemos quanto tempo demorou aquela transição. Mas era fato que de  repente voávamos já sobre a Ilha das pedras  como se nunca estivéssemos saídos daquela rota. O horizonte  agora se apresentava  azul, ensolarado. O arco-íris, apenas um resquício a estibordo, como um sinal de missão cumprida.
Assim que pousamos, a rebelião já havia sido debelada. Os fugitivos  recolocados em suas  celas. Exceto dois, que tombaram na troca de tiros e  outros três que  conseguiram fugir. A busca continuou ininterruptamente, porém, sem sucesso!
Quando chegamos, tudo parecia ter saído de um livro de ficção, exceto pelo vestígio de barro negro que havia no trem de pouso da nossa aeronave, dois projéteis deflagrados de nossas armas, além do sargento e eu.
Dias depois, os outros três foragidos foram encontrados roídos de peixe largados numa pequena enseada.


Um conto de José Alberto Lopes-®-aj-aj

Maio de 2012/2014

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