segunda-feira, 11 de junho de 2012

O RELÓGIO

Quadro de Salvador Dalí.



O relógio

Tic tac, tic tac...
No silêncio das moscas
Um pulsar incessante
Do solitário e nômade
Relógio de corda.
De dia, na cristaleira
Na companhia dos pratos.
À noite, na cabeceira
Entre copos e remédios.
A  carcaça perdera a cor.
Talvez verde ou turquesa.
 Seu  dial desbotado
Como foto antiga
E visor  embaçado,
Marcado,míope.
Mas ainda era forte
No seu tic tac, tic tac...

No repique matinal,
Sempre  um braço sonolento
Esticava-lhe uma mão
De censura.

Oh! artefato de medir o tempo.
cujos passos incontáveis dos segundos
conduzem nossas
existências; início e fim!

Mas o tempo e a poeira,
Irmãos bivitelinos
Com suas mãos de camurça
Sempre  com suas troças...

Começara a falhar.
- Que horas são?
Perguntavam
Olhando-o com desprezo.
Já não tinha mais crédito.
Andava ofegante,
Aos trancos.
Nem lubrificantes,
Limpeza torácica,
Ajuste da âncora
Deram mais jeito!
E assim continuou;
Tic.............tac

Num dia de outono
De céu carregado
De vento soprando
As coisas no chão.
Um pau de vassoura
Que ia e vinha
Golpeou sem querer
O velho maluco!
Caiu lá de cima
Como cai uma estrela,
No chão da cozinha
E espatifou-se.
A campana gemeu
Derradeiro suspiro,
Foi curto, abafado.
Depois, o silêncio.
Em cacos miúdos,
O visor  embaçado
E as vísceras soltas,
Entornadas no chão.

Baixou a criada
De unhas vermelhas
Largou da vassoura
E  pôs-se  a colher.
Nervosa e pálida,
Com muita pressa
Parecia recolher
Cada segundo
Que o velho relógio
Já havia marcado.




José Alberto Lopes
06 de junho de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

ODE A HERMÓGENES



Ode  a Hermógenes


Que alma é essa
Que traz  sons divinos
Cheio de arpejos e cores
Sorrindo leve à brisa?
Será que veio  de uma flor
De única e rara semente
Vestida de corpo
Essa alma será?
Donde vem essa alma
Que o salmista cantou
Que a tristeza desbota
E dá mais cor à alegria?
Vem talvez lá de longe
Onde vivem os moinhos,
Donde a lua  ganha prata
 E dá ouro aos poetas?
Que alma ditosa é essa
Que é lírio, que é rosa,
Que afaga, que chora, que ri
E exalta a esperança?
Será de gente essa alma
Ou de um frágil colibri
Que insiste sobre os espinhos
Não desistindo da flor?
Donde vem essa alma
Que ensina saúde
Que acalma a s procelas
Aqui dentro de nós?
Vem talvez lá do mar
Posto que o mar é incessante,
Ou das nômades dunas,
Posto que são mansas,
Sábias e pacientes!
Que alma é essa
Despojada de vaidades
Que suprime a dor sua
Pra sentir a do amigo?
Existirá outra como essa,
Debutante a cada olhar?
Alma assim vestida em corpo
Nesse corpo a palpitar?

Dr.  José Hermógenes de Andrade.
Escritor. Ex- professor de Filosofia e História do Brasil, além  de ser um dos maiores representantes da Yoga no ocidente.

( A rosa é suprema delicadeza, mas tem espinhos para se defender)


José Alberto Lopes.-12/03/2005

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Acróstico para Lobato

Já vai longe, foi num tempo
Onde os bichos conversavam
Só quem curtia a infância
Entendia o que falavam.
Boneca de pano e retrós
Era assim como um Lobato
Não tinha papas na língua
Tinha os olhos de rapina
Olho no peixe, olho no gato.
Memórias de dona Emília
O saci e a dona Benta
No sítio do pica-pau
Tia Anastácia sempre atenta.
Entravam e saiam da casa
Idéias e muita prosa
Reinações de Narizinho
O Visconde’Sabugosa.
Longe vão as águas claras
Os frutos sobre o capim
Bate o bolo dona Benta!
Aquele de coco e de aipim.
Tempo de Pedrinho, Rabicó e
O pó de pirlimpimpim.

             FIM

(José Bento Monteiro Lobato- Dentre muitas virtudes, foi também o precursor da literatura infantil no Brasil. Hoje, 18 de abril de 2012, comemora-se o seu 130º ano de nascimento)


Foto internete.
Autor José Alberto lopes.

terça-feira, 27 de março de 2012