domingo, 7 de fevereiro de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Aldravias de jan. 2016
Fábrica
abandonada.
Solidão,
sua
única
produção
JAL/1
Cachimbo
da
paz.
É
proibido
fumar?
JAL/2
Drops
Dulcora
pedacinhos
coloridos
de
outrora.
JAL/3
Na
rede
elétrica
uma
pipa
tétrica
JAL/4
Natal
meu
quebra-nozes
um
alicate
universal.
JAL/5
abandonada.
Solidão,
sua
única
produção
JAL/1
Cachimbo
da
paz.
É
proibido
fumar?
JAL/2
Drops
Dulcora
pedacinhos
coloridos
de
outrora.
JAL/3
Na
rede
elétrica
uma
pipa
tétrica
JAL/4
Natal
meu
quebra-nozes
um
alicate
universal.
JAL/5
Poemas de janeiro de 2016
Aurora
A aurora é breve.
Ilusão colorida,
falso tingimento.
Mas o que é a aurora
se não a vida lá fora
e a vida aqui dentro?
Botão
Botão.
O bom filho
à casa torna!
Cera Parquetina
Cera Parquetina!
Ainda brilham na lembrança
os assoalhos por onde
deslizavam minha infância!
Filosofia?
Diria o ladrão:
(Dê-me um pé-de-cabra
e um ponto de apoio
que abrirei esse portão!)
JAL/2016
A aurora é breve.
Ilusão colorida,
falso tingimento.
Mas o que é a aurora
se não a vida lá fora
e a vida aqui dentro?
Botão
Botão.
O bom filho
à casa torna!
Cera Parquetina
Cera Parquetina!
Ainda brilham na lembrança
os assoalhos por onde
deslizavam minha infância!
Filosofia?
Diria o ladrão:
(Dê-me um pé-de-cabra
e um ponto de apoio
que abrirei esse portão!)
JAL/2016
terça-feira, 2 de junho de 2015
Carl Hoepcke - O navio.
(Foto internete)
Carl Hoepcke
A última morada.
A última morada.
O saguão de espera para embarque, estava fervilhando de gente.
Aquela seria a primeira viagem de Júlio e a primeira de navio. O jovem era
caixeiro viajante. Estava ansioso.
O transatlântico Carl Hoepcke era um
navio luxuoso, raro em portos nacionais. De origem alemã, construído em 1.926,
fora adquirido juntamente com seu irmão gêmeo, o Anna, para compor a frota duma promissora empresa de navegação
de cabotagem instalada em Florianópolis Santa Catarina.
Possuía duas classes. Tinha ótimos
camarotes, salão de festa, mesas com cadeiras giratórias, cozinha sofisticada,
além de louças e pratarias importadas. Também era provido de rádio para
navegação, e até um fumadouro com belas e confortáveis poltronas e divãs. Um
piano animava os passageiros e era tocado pelo telegrafista e pianista do
navio.
No saguão o burburinho continuava,
misturado aos rangidos das rodas sobre os trilhos dos bondes que passavam ali
na avenida Portuária.
Um casal chegara atrasado e foi logo
perguntando sobre a partida do navio.
Teve sorte, pois o atraso já somava uns trinta minutos.
Era um homem de meia idade e
impecavelmente trajado. Acompanhava-o uma linda jovem também muito elegante. A
diferença de idade entre eles, chamava
a atenção. Ela usava um chapéu com longas plumas, bolsa e sapatos da mesma cor
do vestido e muitas joias.
O homem acomodou-se numa poltrona próximo de Júlio, acendeu um legítimo Havana
e começou a folhear o matutino. De seus
dedos coruscavam grandes anéis de ouro com pedrarias em ônix e rubis. Do seu
lado, a moça permanecia em pé. Isso
deixou Júlio intrigado.__Que homem Grosso! Pensou. Então demonstrando
cavalheirismo, levantou-se e cedeu o
seu lugar a ela.
Nesse simples gesto, percebeu o quanto
o mundo tornava-se cada vez mais
pequeno. Era sem dúvidas, Madeleine, não tinha como não a reconhecer. Não! não
era ilusão da fumaça desgarrada do seu cigarro! Era ela.
__ Meu Deus! é você? Disse ele
surpreso, quase sussurrando.
__Júlio.....!! gaguejou a moça!
Foram namorados durante muitos anos.
Trocaram juras e até arremedos de
alianças de compromisso, ainda no tempo
de colégio. Porém, a vida os separara.
Enquanto se ensaiava um diálogo, por
sobre o jornal, aquele homem os
observava, com um olhar nada amistoso.
A moça franziu o canto da boca,
agradeceu friamente e sentou-se dirigindo ao chão um olhar submisso. Nas entrelinhas, Júlio, de certa forma,
entendera o que se passava, engoliu
seco e afastou-se do local dirigindo-se
até o bar, onde pediu um café, papel e lápis. Numa pequena xícara carnuda, um
café preto que pelava, e enquanto bebericava escrevia algo apressadamente. Seu peito ressoava forte!
Depois retornou para onde estava o casal e se apresentou ao homem, como caixeiro viajante
oferecendo-lhe seu cartão de
referência. O brutamonte o ignorou abrindo as duas páginas do jornal,
conferindo as cotações do dia. Mesmo assim, Júlio, correndo o risco conseguiu
entregar à Madeleine, o seu bilhete. Ela o agasalhou fechando a mão e
o guardou entre os seios.
Finalmente todos puderam se
dirigir ao portaló do navio e em seus
camarotes se acomodaram.
Então o apito surdo estremeceu o ar, o
cais, e o capitão respirou aliviado!
O mar estava calmo naquela manhã, sol
entre nuvens e um noroeste fraco.
Logo o luxuoso navio deslizava
preguiçosamente, deixando para trás o seu rastro n'água, uma negra cabeleira de
fumaça e a velha Santos dos Andradas.
Mal guardara sua mala, retornou ao convés e com olhos aquilinos varreu cada espaço na esperança de ver novamente
Madeleine. Mas não foi o que aconteceu e quando já voltava descendo do convés, um funcionário do navio o chamou
discretamente:
__Senhor Júlio, senhor Júlio! pediram
que lhe entregasse isso aqui! Disse
passando-lhe rapidamente um papel
dobrado em dois.
__Onde está ela? Interpelou Júlio. Mas
o funcionário se retirou sem nada mais dizer.
Ansioso, correu até a sua cabine. Era
uma pequena carta assinada com a letra M. A bela cursiva sacramentava o que Júlio não queria
acreditar. Estavam casados e fazia pouco tempo, e ela não era feliz.....Ele era
um homem influente no meio político, tinha negócios na Bolsa do café, além de
ser um homem grosso.O casamento acontecera
por imposição das duas famílias.
Porém, ela nunca se esquecera de Júlio, o amava, e isso abriu ao rapaz uma
réstia de luz....
Suspirando, releu a carta e depois, com
os olhos lacrimejados jogou-se sobre a
impecável cama e dormiu. Não demorou, acordou de um sonho estranho, um
pesadelo. Sonhara que Madeleine era uma das camareiras do navio, que aparecendo
em seu dormitório, pedia-lhe
desesperadamente que ele deixasse o
local. Acordou puxando o ar e com o coração bombeando forte. Lavou o rosto,
sacou um cigarro e logo estava
recomposto. Mas, já havia perdido a
vontade de viajar e sua ansiedade transformara-se em tristeza.
__Por que, Madeleine? Por quê?
Subiu e caminhou até a amurada do navio e lá debruçado, com as mãos entrelaçadas, ficou por longo tempo
olhando para um ponto fixo no espaço. Depois tirou do bolso a
carta e leu mais uma vez. Sua cabeça latejava! A perdera novamente....Mas, os dias felizes que tiveram, ainda viajavam no convés da sua
memória... Parecia sonhar acordado.
Então ali quase em transe, foi repentinamente despertado pelo alarme intermitente que tocava.:
__Incêndio na casa de máquinas, organizem-se em fila indiana e dirijam-se até a área dos botes salva vidas.
Sigam o líder, gritou o imediato com voz firme, através de uma corneta.
Eram 168 almas a bordo, entre tripulantes e passageiros. No desespero
alguém lançou-se ao mar, e infelizmente nunca
foi encontrado.
Mas, num ato impensado Júlio quebrara
as regras. Correndo na contramão, desceu até o seu camarote. Apanhava seus
pertences quando uma camareira o surpreendeu. Energicamente pediu-lhe que abandonasse
a área rapidamente e
seguisse os demais. Pôde levar apenas a pequena valise. Saiu trôpego ganhando
finalmente o convés. Acomodado em seu
escaler, ficou a matutar sobre a cena
do pesadelo e a cena real que a pouco
vivenciara...e se perguntava por Madeleine!
Era manhã do dia 27 de setembro de
1.956, quando há uns 29 kilômetros de
Santos ocorrera o acidente que só não
se transformou em tragédia,
graças ao navio Inglês Norseman da WT
e do outro navio, o Itaquatiá da CNNC
que navegando próximo a área, prontamente realizaram o resgate de todos.
Júlio, por mais que tentasse, não conseguiu mais avistar a garota. Chateado ali
mesmo abandonou a profissão.
Desespero por desespero o capitão e
alguns tripulantes tentaram uma última e arriscada manobra para salvar o navio do incêndio que ainda o consumia.
Arrastaram-no com o auxílio de um rebocador e o encalharam propositalmente no estuário Conceiçãozinha. Após debelada as
chamas, bem que o Carl Hoepcke se
negara a flutuar. Depois de várias
tentativas foi finalmente rebocado para o seu porto de origem.
Porém o orgulho, principalmente dos
Florianopolitanos estava ferido. O
então glamouroso navio já não era o
mesmo. Chamuscado, sem a chaminé, movendo-se, não por moto próprio, deixou seus
admiradores consternados. Mesmo assim o receberam como um heroi que retorna da guerra. A ponte
Hercílio Luz estava tomada de gente naquele dia, e o aplaudiram quando ele a
cruzou.
Mas o destino do Carl Hoepcke estava
decretado! No estaleiro Arataca, ferindo mais uma vez o orgulho da sua gente, o
então luxuoso navio de passageiro foi transformado em navio cargueiro.
Dai para frente nunca mais tiveram
notícias dele. O máximo que se
soube é que fora rebatizado com outro
nome. Assim como Júlio também nunca mais teve notícias de Madeleine.
Como cargueiro, manteve a sua dignidade
cortando as águas costeiras do país,
transportando carvão, açúcar, madeira...dentre outras mercadorias.
Caro leitor, essa história bem que
poderia terminar aqui. Porém, num dia ,
quase final de fevereiro, Júlio, como era seu hábito, saiu para a sua caminhada
matinal pela orla marítima de Santos. Sair do canal 3 e chegar ao canal 6 era uma boa puxada. O sol ainda
era tímido e o ar estava fresco depois da chuva da madrugada. Foi pela areia.
O imenso mar o acompanhava a bombordo,
mas foi à sua proa ao longe que uma
cena insólita aos poucos se descortinava . Caminhou mais um estirão, e. Era um
navio encalhado nas areias de Santos.
Aproximou-se e viu que se chamava Recreio. Conferiu-o com pouco interesse e
dali retornou, agora, sob as sombras
das velhas amendoeiras.
Muitos anos depois, lendo um artigo num
jornal da cidade, muitas recordações vieram à tona!
Aquele navio chamado Recreio.
Tratava-se na verdade, do antigo Carl Hoepcke que depois de cargueiro ainda
serviu como boate flutuante e que ficava ancorado na praia do Góes em Santos.
Aconteceu assim:
Era madrugada do dia 28 de fevereiro de
1.971, quando aquele navio sentiu descochar as suas amarras. Nem a pesada
âncora deu conta, uma tremenda tempestade o arrasta em portentosos vagalhões,
arremessando-o à praia.
Amanheceu e um gigante monumento
de aço
com mais de 62 metros de comprimento estava lá há uns 100 metros da avenida, aprumado sobre a
areia como se pedisse socorro. Logo
aquela fortuita coisa digere a atenção de centenas de pessoas que correm
até o local, espantadas e curiosas. __ Como pode a areia prender um gigante assim? Pode!!
Depois de intermináveis discussões burocráticas, a
sorte estava lançada. Numa tarde vieram uns homens e a bico de maçarico o
retalharam como boi no matadouro.
somente lhe pouparam o leme, que ainda hoje encontra-se guardado num armazém do porto de Santos. o restante virou sucata
barata.
É possível ainda hoje, na baixa-mar,
ver partes grandes do seu caso que ainda jazem nas escuras areias daquela ponta de praia.
Aquele artigo, aquele acontecimento,
deixou Júlio mais uma vez triste e saudoso. No dia seguinte saiu logo cedo e dirigiu-se
ao local do antigo naufrágio. Era
inverno, a praia estava praticamente
deserta, as amendoeiras estavam desnudas,e o vento cortava de frio.
Era baixa-mar, então ele pode ver
resquícios do velho casco.
Quedou-se por minutos..
Depois, num ato solene, reduziu a
pedaços, a carta que Madeleine havia
escrito há mais de quarenta
anos e atirou tudo sobre o casco semi-exumado!
Emocionado, deu as costas e caminhou
pela areia, sem olhar para trás, desaparecendo aos poucos em meio à névoa.
E eram os pedaços tão pequeninos
que as gaivotas as colhiam como
se fossem migalhas atiradas.
FIM
Um conto de José Alberto Lopes.
março/maio de 2015
sábado, 31 de janeiro de 2015
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Além do Arco-Íris (I)
Há fatos que acontecem em nossas
vidas e que tentamos de qualquer forma atropelar o tempo para que logo tudo
caia no esquecimento. Esquecer, pura e
simplesmente, não é tarefa fácil, não é
página que se rasgue, e pronto!! tudo resolvido. Mas, a luta do dia a dia para
não me lembrar daquele acontecimento, livrou-me de escorregar para o abismo
da loucura! A mim e ao meu companheiro
de jornada.
O meu propósito era
esquecê-lo para sempre. Todavia hoje, passado mais de três décadas, resolvi
quebrar a minha promessa e escrever sobre ele.
Bem afastada do continente, ficava a ilha das pedras.
Por essa condição estratégica, a ilha abrigava uma prisão de máxima segurança. Lá estavam
encarcerados pessoas com ideologias contrárias ao regime instalado naquela
época, e também criminosos comuns, facínoras como Radun, dentre outros.
Cumpriam perpétua!
Partimos enquanto uma borrasca se levantava lá no mar. Eu e o sargento Zara. Era uma viagem curta,
de uns quinze minutos, já rotina até a
Ilha. Porém, assim que decolamos,
recebemos um comunicado nos alertando sobre uma rebelião na qual
empreenderam fuga, Radum, Libéllus e Solares,
dentre outros.
Na distância em que nos encontrávamos, era possível ver um
rolo escuro de fumaça que lentamente
subia da pequena ilha. Com certeza, a rebelião já ganhara grandes proporções.
A borrasca por sua vez, ia se
dissipando, deixando no céu um lindo arco-íris que parecia se posicionar bem à
nossa frente. Voávamos a baixa altitude
e assim que cruzamos o enorme arco colorido percebemos algo anormal nos
instrumentos de navegação. A comunicação foi ficando cada vez mais débil até se
anular por completo. Parecia que estávamos voando numa zona morta.
A nave
começou a trepidar e a derivar para estibordo sem obedecer aos comandos.
Ficamos temerosos, pois a aeronave continuava trepidando, como tivesse sendo
peneirada e ao mesmo tempo, parecia ser
sugada por um funil numa velocidade estonteante, fora dos padrões normais que
uma aeronave daquela categoria poderia resistir. A fuselagem parecia
desintegrar-se junto a um ruído
ensurdecedor.
Não sabemos quanto tempo aquilo
durou. De súbito a estúpida força foi diminuindo, diminuindo, até que tudo se
acalmou. O motor não funcionava mas, a aeronave flutuava num denso nevoeiro até
que pousou mansamente num platô próximo a
um pântano. Inacreditável, parecia um pesadelo sem fim.
- Que lugar é este? Perguntou um
tanto aturdido, o Sargento Zara. E eu
também aturdido, respondi. __Logo saberemos. É uma ilha, porém não é a Ilha
das pedras com certeza não é.
Não estávamos sós. Um punhado de
pequenos guerreiros que lembravam
pigmeus assomou a certa distância de nossa aeronave. Tinham a pele cor de cobre e eram secos de carne. Não pareciam
hostis pois responderam de forma amistosa aos nossos sinais.
Abri a carlinga e descemos com
algum cuidado sob os olhares atentos e curiosos daqueles homúnculos que ainda
permaneciam estáticos. Alguns segundos de tensão e todos baixaram suas lanças de
pau e pedra. Dois deles saíram
do grupo e avançaram alguns metros em
nossa direção. Livraram-se das tocas que cobriam-lhes a cabeça, e eram dua
mulheres. Falando em mímica, a mais
velha delas pediu que os acompanhassem. Há uns novecentos metros dalí havia uma pequena aldeia, bem primitiva. O
único caminho para se chegar até lá era
pelo mangue, cheio de armadilhas naturais. Sem
nenhuma opção, seguimos.
Depois de dura caminhada sobre o
lodo e em meio a uma vegetação fechada, chegamos. Na parte mais alta
havia uma casa de pedra com três janelas, e de dentro saia uma fumaça
azulada.
Um velho bem alto, arqueado sobre
um báculo nos recebeu. Tinha longos e fartos cabelos brancos, arrematado por um chapéu de couro duro. Tinha a face macilenta, olhos azuis e falava a nossa
língua. A combinação era perfeita, lembrei-me de Gulliver e a ilha de Lilliput.
Entramos.
- O senhor não me parece nada
surpreso com a nossa presença. Disse, observando cada canto da casa.
- Digamos que de certa forma já os esperava!
- Não
entendi a brincadeira! Retruquei.
- Não
é brincadeira!Entenderás logo!
Ignorei as
réplicas, pois achei que ele estava mesmo brincando conosco, ou não passava de
um louco. Então me apresentei:
- Sou o
tenente Lopeck, e esse é o sargento Zara.
- Pode
me chamar de Burlog, Capitão Burlog.
Disse ele apontando com o báculo para que sentássemos.
Sobre uma taipa, um improvisado
fogão feito com três pedras, onde se assentava um caldeirão de barro, fumegava
uma espécie de sopa que por sinal cheirava muito bem. Com seu modo meio
desajeitado, mas, dócil, convidou-nos para cear com ele. Uma cabaça de mel e uma espécie de pão
completavam o jantar.
Um
castiçal tôsco feito de madeira com
três velas, que pendia do teto escuro sobre
a nossa mesa, mal clareava aquelas paredes fuligentas, e também aquele
rosto grande acolhido pela aba do
chapéu. Para sermos cordiais
aceitamos uma água.
Enquanto ceiava voltamos a falar
sobre aquele lugar, sobre a nossa chegada, sobre o nosso futuro...Sobre o
mistério de estarmos ali, sem mais , sem menos.
- Em que lugar estamos? Perguntou
Zara.
- Atrás do seu tempo! Respondeu de
forma natural, mastigando sem parar.
- Mas isso não responde nada!
Retruquei.
- Estão aqui para nos ajudar... e um dia vocês entenderão isso!
- Então não viemos aqui por acaso?
Perguntou Zara num tom de caçoada.
Ignorando o que dissera o sargento, ele continuou:
- Alguns piratas chegaram até a
nossa ilha. Já saquearam quase tudo o
que puderam. Mataram muitos ilhéus. Aqui, já não se ara a terra faz
muito tempo. Os nossos celeiros definham. Logo, logo, morreremos de fome. Como
vocês podem ver, aqui só sobraram velhos, mulheres e crianças. Mas a cobiça
maior são as pérolas que há por aqui, e
para pegá-las, é preciso mergulhar bem fundo, e somente os ilhéus podem fazer
isso, e por essa razão, também os
escravizam e os matam de tanto trabalho. Logo chegarão até este reduto. Nos encontrarão como urubús sabem da
carniça, e levarão o que resta de nossas
provisões.
- Sim, não deixa de ser uma uma
estória de aventura..Deixa eu entender isso... Disse o sargento.
- É um fato, e não uma
estória. Replicou o velho.
- E por quê você acha que temos
que salvá-los?
- Vocês
estão aqui, não é...?
- Do que você está falando?
- Nada de mais! Disse o velho
capitão, dando de ombros e levantando os braços.
- A nossa aeronave? Ficou lá perto
do pântano!.... Insinuei...
- Miserável. Disse o sargento ameaçando o velho com sua arma!
- Por favor, pediu ele!
Encolerizados, demos as
costas e tentamos sair da casa. Porém, sua voz de trovão
e sua pesada mão me deteve:
- Por
favor. Acreditem em mim, precisamos de sua ajuda. Tudo escrito está. Logo
voltarão para casa sem nenhum problema. Mas agora, precisamos da ajuda de
vocês. Sua nave está no pântano, no mesmo lugar e camuflada com arbustos de mangue, podem ir até lá e constatar,
levem nossos guias! Mas, depois voltem para nos ajudar.Sou velho demais para
isso, e aqui só tem mulheres e crianças. Por favor. Insistia o
velho capitão Burlog. E continuou:__É
uma longa história a minha. Fui Náufrago, e isso foi há muitos anos, um dos
poucos que se salvaram, e estar aqui vivo, devo à esses pequeninos....
Não sabemos explicar, mas, no
momento em que chegamos até a nossa aeronave,
vimos que tudo estava em ordem. A nave funcionava perfeitamente e o
painel indicava uma viagem ainda em curso.. Continuamos a não entender aquilo,
porém, algo nos amoleceu o coração e voltamos.
Acalmada a situação, pagamos pra
ver até aonde essa história nos levaria e aceitamos a empreitada.
Na manhã seguinte a aldeia acordou em polvorosa. Não era por causa
da tempestade que vinha lá do alto mar. Era por causa dos piratas. Eram eles
afinal. Existiam sim!
Nessa altura, os facínoras e a tempestade eram as únicas coisas que
cheiravam à realidade. Com nossas armas
modernas, não foi difícil enfrentá-los. Por estarem em desvantagem bélica,
preferiram fugir para uma pequena embarcação que estava fundeada a poucos
metros da praia. Na fuga, dois caíram
mortos e o rosto de um deles pareceu-me
familiar. Os outros três conseguiram chegar até o barco.
A tempestade chegou forte com
rajadas violentas provocando enormes ondas que partiriam ao meio um encouraçado
em poucos minutos.
Dali corremos para o abrigo, uma
pequena caverna, mas a nossa aeronave
nos preocupava.
Saímos para chegar à ilha das
pedras e chegamos a uma outra ilha que
se chamava, ilha das pérolas...que nunca soubemos exatamente onde ficava.
Dois dias depois da tormenta encontraram os corpos dos outros
três, roídos de peixe largados numa pequena
praia.
Dessa forma, a ilha se viu livre
daqueles piratas. Mas antes, os
pequenos, fizeram um lastro de pedras e amarraram no que sobrara dos
corpos e os atiraram de um penhasco. Acreditavam eles, que dessa maneira o
espírito mal de cada um daqueles homens ficaria lá até que a profundeza do mar os redimisse.
- Será que estamos alucinados
tenente?
- Tomara que sim, pois somente
isso poderá explicar o inexplicável!
Aquele povo triste voltava a
sorrir depois de tanto tempo sob o jugo
daqueles homens. O velho Capitão
Burlog, chorava, mas, era de alegria! Celebraram a liberdade como algo mais
precioso do mundo. Não trocariam aquela vida por toda pérola que havia naqueles
mares.
Gritavam palavras de
agradecimento. Dançavam e cantavam ao som de tambores, em volta de uma grande
fogueira, cujas chamas pareciam levar aos céus todos os seus louvores.
Já era madrugada quando nos levaram até a nossa
aeronave. Uma procissão de gente carregando suas tochas serpeavam a densa mata.
- Como voltaremos? Ia pensando, enquanto, embalados por aquela cantoria
seguíamos. Mais tarde entenderíamos porque partimos de madrugada. O tempo
estava limpo. Uma extensa poeira de estrelas piscava naquele céu, um céu
diferente.
Chegamos. O capitão Burlog tomou a
palavra e nos agradeceu muito. Aquele rosto macilento, agora se apresentava
corado, alegre!
Esticando seu longo braço,
apontou-nos uma constelação cujo nome não me lembro, mas que significava:
“Buraco ou fenda” e disse, com os olhos marejados:
- Sigam naquela direção, e o tempo
se encarregará do resto. Não se preocupem com nada, tudo findará bem.
Embarcamos, mais uma vez ovacionados por aquela gente.
Novamente ficamos sem entender
absolutamente nada. Tudo se repetiu, agora de maneira inversa. A estúpida força
agia nos expulsando pelo mesmo funil da entrada. A trepidação.. o medo.. a
tensão. Tudo se repetiu!
Não sabemos quanto tempo demorou
aquela transição. Mas era fato que de
repente voávamos já sobre a Ilha das pedras como se nunca estivéssemos saídos daquela rota. O horizonte agora se apresentava azul, ensolarado. O arco-íris, apenas um
resquício a estibordo, como um sinal de missão cumprida.
Assim que pousamos, a rebelião já
havia sido debelada. Os fugitivos
recolocados em suas celas.
Exceto dois, que tombaram na troca de tiros e
outros três que conseguiram
fugir. A busca continuou ininterruptamente, porém, sem sucesso!
Quando chegamos, tudo parecia ter
saído de um livro de ficção, exceto pelo vestígio de barro negro que havia no
trem de pouso da nossa aeronave, dois projéteis deflagrados de nossas armas,
além do sargento e eu.
Dias depois, os outros três
foragidos foram encontrados roídos de peixe largados numa pequena enseada.
Um
conto de José Alberto Lopes-®-aj-aj
Maio
de 2012/2014
sábado, 27 de dezembro de 2014
Dois Vasos
Foto. internete. Google.
Talvez a argila
Que me havia composto
Estivesse impura
E as minhas formas
Não tão equilibradas,
Se devesse
À inaptidão do oleiro.
Mas, na minha serventia
Guardei a água,
Mantendo-a fresca.
Agasalhei flores silvestres
Alegrando humilde mesa.
Diferente de ti;
Peça rara, preciosa, valiosa...
Sobre sedas suntuosas
E cuidados desmedidos.
Mas, um dia
Tu também foste ao chão.
E olhando os nossos cacos
Imprestáveis, num monturo
Quase não a reconheci.!
José Alberto Lopes®
set. 15/2012
Assinar:
Postagens (Atom)



.jpg)