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sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Cine Cisne

  
Era uma construção lá do início do século XX. Telhado bem apanhado, terminado com gárgulas fantasmagóricas. Portas altas de carvalho trabalhadas a mão e uma escadaria em granito escuro. O prédio era caiado todos os anos, o  que lhe conferia sempre bom aspecto.
Seu Galdino não queria presenciar a demolição daquele prédio, onde funcionou o único cinema da cidade. Ele  trabalhara na  projeção dos filmes por longos  cinquenta  anos, mas criou coragem e foi.
Uma platéia circundava a área para assistir o que seria o último   e derradeiro espetáculo. Ali seria construído um estacionamento para veículos.
As paredes não resistiram à primeira estocada. Um cheiro de passado que decantado estava, parecia tomar conta do ambiente.
 Um  filme deve ter passado pela cabeça daquele  velho homem, os seus olhos já marejavam. Então, tomado por uma  solidariedade silenciosa e também emotiva pus-me a  divagar acerca de alguns filmes que ali assistira há muito tempo:

 -De quê  valeriam agora os gritos de “Tarzan, o filho da selva” a força de “Hércules”, aquela corrida de bigas  ganha por “Ben-Hur”, a paciência e perseverança de “Papillon”.. etc..?
 Aquilo era a própria “Ascensão e queda do Império Romano”.

Antes que o último tijolo caísse, retornando à origem, seu Galdino deu as costas para aquele estranho show e foi  embora. Não, ele  não suportaria.
Pois é, quase ninguém se indignou com  a demolição de um  prédio histórico. Ninguém apupou o seu desaparecimento, mas apupariam com certeza o velho Galdino se nesse momento  estivessem eles, numa sessão de cinema e o filme durante a projeção,  por infelicidade,  enroscasse, como acontecera algumas vezes.



José Alberto Lopes®
Jun. 2011










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